
O processo nº 8001937-40.2026.8.05.0079, em tramitação na 1ª Vara Criminal de Eunápolis (BA), revela um dos mais complexos e graves esquemas já investigados no sistema prisional do sul da Bahia, envolvendo corrupção, organização criminosa e a fuga em massa de detentos ocorrida em dezembro de 2024. A denúncia foi apresentada pelo Ministério Público da Bahia, por meio do GAECO (Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas), e aponta a atuação articulada entre agentes públicos, lideranças criminosas e intermediários.
No centro da investigação está o ex-deputado federal Uldurico Alencar Pinto, conhecido como Uldurico Júnior, acusado de receber cerca de R$ 2 milhões para viabilizar a fuga de presos do Conjunto Penal de Eunápolis. O valor teria sido pago pelo interno Ednaldo Pereira Souza, o “Dadá”, apontado como líder da facção Primeiro Comando de Eunápolis (PCE).
Negociações e encontros iniciais
De acordo com a denúncia, a articulação teve início no dia 2 de novembro de 2024, nas proximidades do Hotel Oceania, em Eunápolis. Na ocasião, um intermediário ligado a Ednaldo teria participado de uma reunião dentro de um veículo com Uldurico e uma colaboradora da investigação. Durante o encontro, uma ligação em viva-voz teria selado o acordo inicial de R$ 2 milhões.
No dia seguinte, 3 de novembro de 2024, uma nova reunião ocorreu em um restaurante da cidade, com a presença de outros envolvidos, entre eles Alberto Cley e Matheus Brandão. Nessa ocasião, o valor foi reafirmado e passou a ser tratado em mensagens com o codinome “duas rosas”.
Pagamentos e movimentações financeiras
Parte do valor foi antecipada. No dia 4 de novembro de 2024, a colaboradora recebeu uma caixa de sapato com dinheiro em uma residência no bairro Juca Rosa. No dia seguinte, 5 de novembro, o montante foi entregue na casa de Uldurico, em Teixeira de Freitas, com registros de geolocalização confirmando o deslocamento.
Além do dinheiro em espécie, houve transferências bancárias:
Depósito de R$ 21.600,00 na conta de Uldurico;
PIX de R$ 24 mil para uma conta em nome de Gustavo Frazão.
Ainda em 25 de novembro de 2024, novos pedidos de valores foram feitos. Sem recursos imediatos de Ednaldo, a colaboradora teria antecipado R$ 20 mil, sendo:
R$ 15 mil em espécie entregues a Cristiane Pinto da Paixão;
R$ 5 mil via PIX.
Os valores foram posteriormente ressarcidos por pessoas ligadas à organização criminosa.
Estrutura dentro do presídio
A investigação aponta que o esquema contou com apoio direto da então diretora do presídio, Joneuma Silva Neres, indicada ao cargo por Uldurico. Segundo o Ministério Público, sua gestão foi marcada por concessões ilegais a integrantes da facção, incluindo:
Entrada de eletrodomésticos nas celas;
Alimentação diferenciada;
Livre circulação de presos;
Visitas íntimas irregulares;
Reuniões privadas com lideranças criminosas;
Realização de velório dentro da unidade.
Testemunhas afirmaram que Uldurico frequentava o presídio sem registro oficial, participando de encontros reservados com detentos, incluindo Ednaldo.
A fuga: 12 de dezembro de 2024
A fuga ocorreu na noite de 12 de dezembro de 2024 e envolveu uma ação coordenada:
Internamente, presos escavaram estruturas com ferramentas introduzidas ilegalmente;
Externamente, homens armados invadiram o presídio, disparando contra torres de vigilância com armas de grosso calibre.
Ao todo, 16 detentos fugiram. Há indícios de que os foragidos tenham seguido para o Rio de Janeiro, onde estariam sob proteção de outra facção.
Desdobramentos e ameaças
Após a fuga, mensagens interceptadas revelam pressão por pagamento do restante do acordo. Expressões como “a rosa tem que chorar” eram utilizadas como código para cobrança.
Em 22 de dezembro de 2024, a colaboradora se encontrou com Uldurico em Salvador, onde afirma ter sido ameaçada para não revelar detalhes do esquema. Dias antes, em 20 e 21 de dezembro, mensagens indicam que ambos combinaram encontros na capital, incluindo hospedagem em hotel.
Outro ponto sensível da investigação é a menção ao ex-ministro Geddel Vieira Lima, apontado nas mensagens como possível destinatário de parte dos valores, identificado como “chefe”. Esse trecho ainda é objeto de apuração.
Provas reunidas
O conjunto probatório inclui:
Dados de geolocalização;
Extração de mensagens de celulares;
Depoimentos de agentes penitenciários;
Relatórios técnicos do GAECO.
As evidências indicam, segundo o Ministério Público, uma estrutura organizada, com divisão de funções, uso de códigos e articulação contínua entre os envolvidos.
Crimes e andamento do processo
Uldurico Alencar Pinto foi denunciado por:
Organização criminosa;
Corrupção passiva;
Facilitação de fuga de preso.
Já Ednaldo Pereira Souza responde por corrupção ativa e outros crimes relacionados à organização criminosa.
O Ministério Público também requer:
Prisão preventiva dos envolvidos;
Mandados de busca e apreensão;
Indenização de R$ 6 milhões por danos morais coletivos.
O caso segue em tramitação na Justiça da Bahia e ainda não possui decisão definitiva. Os investigados têm direito à ampla defesa, enquanto as autoridades continuam aprofundando as apurações sobre um esquema que, segundo os autos, comprometeu gravemente a segurança pública e a integridade do sistema prisional baiano.
Segundo delação de Joneuma Neres, ex-diretora do Conjunto Penal de Eunápolis, o ex-deputado Uldurico Júnior é pai de sua filha, nascida em 2025 enquanto ela estava presa. A relação é investigada no contexto de um suposto esquema de facilitação de fuga de detentos, aliciamento de votos para o político em 2024 e recebimento de propinas que totalizariam R$ 2 milhões.
O ex-deputado federal Uldurico Júnior (MDB-BA) foi preso preventivamente em abril de 2026 durante a Operação Duas Rosas, conduzida pelo Ministério Público da Bahia. Ele é
Ednaldo Pereira de Souza (“Dadá”), apontado como líder de facção com ligação ao CV, continua foragido.
Além da prisão, foram cumpridos mandados em várias cidades da Bahia contra outros suspeitos, incluindo um ex-vereador e um advogado.
Dos cinco nomes citados pela ex-diretora do presídio, apenas dois são alvo direto das investigações e tiveram mandados de busca e apreensão cumpridos na operação que também teve como foco Uldurico Júnior. Os outros três aparecem apenas mencionados, sem qualquer indicação formal de envolvimento em crimes ou participação nas supostas negociações.
Veja a relação:
Os demais nomes foram apenas citados:
Em entrevista ao g1, Jonatas dos Santos e Clebson Porto afirmaram que estiveram no presídio apenas uma vez, acompanhando Uldurico, no dia da posse de Joneuma Silva Neres como diretora do Conjunto Penal de Eunápolis. Segundo eles, não houve qualquer contato com detentos na ocasião.
A defesa do ex-deputado afirma que ele é inocente e diz que irá provar isso durante o processo.