MP aciona Veracel, Inema e fazendeiros por barragens ilegais em Guaratinga; ação cobra R$ 5 milhões e expõe omissão ambiental

Giro de Noticias - 10/08/2026 - 10:07


GUARATINGA (BA) — Uma investigação que se arrastou por quase uma década escancarou um cenário preocupante de degradação ambiental no extremo sul da Bahia. O Ministério Público do Estado da Bahia (MP-BA) ajuizou uma ação civil pública contra fazendeiros, empresas — entre elas a Veracel Celulose — e o próprio órgão ambiental estadual, o Inema, por danos à bacia do Córrego Pouso Alegre.

O processo não apenas detalha impactos ambientais graves, mas também levanta um ponto sensível: a possível omissão de quem deveria fiscalizar.

Denúncia ignorada por anos

A investigação teve início em março de 2017, após a denúncia de um morador do Assentamento Pouso Alegre, que alertou sobre o uso irregular da água. O que deveria gerar resposta rápida se transformou em um inquérito que durou oito anos até resultar em ação judicial.

Nesse período, segundo o MP, as irregularidades avançaram. Fiscalizações identificaram a existência de 24 barragens construídas sem autorização em propriedades rurais da região. Apenas cinco estavam cadastradas, e nenhuma possuía licença ambiental ou outorga para uso da água.

A pergunta que fica é direta: como tantas estruturas ilegais permaneceram ativas por tanto tempo sem intervenção efetiva?

Danos que vão além do visível

De acordo com o Ministério Público, os impactos ambientais são profundos e, em muitos casos, irreversíveis a curto prazo. Entre os principais danos apontados estão:

  • Desmatamento de nascentes
  • Degradação de matas ciliares (áreas de preservação permanente)
  • Assoreamento do córrego
  • Interrupção do fluxo ecológico da água

A situação se torna ainda mais grave ao considerar o histórico recente da região, que enfrentou uma crise hídrica severa entre 2015 e 2016, quando comunidades chegaram a depender de caminhões-pipa. Para o MP, as barragens irregulares podem ter contribuído diretamente para agravar esse cenário.

Quem está na mira da ação

Ao todo, oito réus foram incluídos no processo. O Ministério Público pede a condenação ao pagamento de R$ 5 milhões por danos morais coletivos, além da recuperação integral das áreas degradadas.

Os valores foram divididos conforme o grau de impacto atribuído:

  • LC2V Patrimonial Ltda — R$ 2 milhões
  • Frederico Lisboa Moura — R$ 875 mil
  • José Hélio Brito Costa — R$ 750 mil
  • Edmar José de Queiroz — R$ 500 mil
  • Arlisson Ferreira de Andrade — R$ 375 mil
  • Eduardo Ferreira Costa — R$ 250 mil
  • Veracel Celulose S/A — R$ 250 mil
  • Inema — responsabilização solidária por omissão

Caso haja condenação, os recursos serão destinados ao Fundo Municipal de Meio Ambiente de Guaratinga.

Inema no centro das críticas

Um dos pontos mais delicados da ação é a inclusão do próprio Inema como réu. Segundo o MP, o órgão deixou de responder a diversos ofícios ao longo dos anos e demorou a agir diante das denúncias, o que pode configurar falha grave no dever de fiscalização.

Na prática, a ação levanta um debate incômodo: quando o órgão responsável por fiscalizar também falha, quem protege os recursos naturais?

Justiça cobra resposta imediata

Em decisão inicial, o juiz determinou que o Inema realize, no prazo de 30 dias, uma inspeção técnica para avaliar o fluxo ecológico do córrego — passo considerado essencial para dimensionar os danos e orientar as medidas de recuperação.

Outras determinações ainda dependem da análise do relatório técnico.

O que o MP exige

Além da indenização milionária, o Ministério Público requer medidas consideradas urgentes:

  • Apresentação de Plano de Recuperação de Área Degradada (PRAD) em até 60 dias
  • Execução das ações de recuperação em até dois anos
  • Regularização ambiental (licenças e outorgas) em até 180 dias
  • Recuperação das áreas de preservação permanente
  • Garantia do fluxo mínimo de água no córrego

Em caso de descumprimento, pode ser aplicada multa diária de R$ 5 mil.

Caso ainda será julgado

O processo segue em tramitação, e os acusados ainda terão a oportunidade de apresentar defesa. O próprio Ministério Público ressalta que todas as acusações serão analisadas dentro do devido processo legal.

Procurado, o promotor responsável informou que não irá se manifestar neste momento.

O caso expõe um cenário crítico de pressão sobre os recursos hídricos e reforça um alerta que vai além de Guaratinga: sem fiscalização efetiva, danos ambientais se acumulam, e quem paga a conta, mais uma vez, é a população.

O espaço segue aberto para a defesa dos citados se manifestar.

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