Bahia concentra R$ 578 milhões em gastos com shows pagos com dinheiro público entre 2024 e 2026. O valor coloca a Bahia no topo do ranking nacional

Giro de Noticias - 15/07/2026 - 07:48


A Bahia concentrou cerca de R$ 578 milhões em repasses públicos destinados à contratação de shows artísticos entre janeiro de 2024 e 31 de março de 2026. Os dados fazem parte do relatório “Farras”, divulgado por um observatório que investigou contratos financiados com dinheiro público em todo o país.

De acordo com o levantamento, os recursos envolvem contratações realizadas por prefeituras municipais e também pelo governo estadual. Ao todo, o estudo analisou mais de 20 mil contratos em nível nacional, evidenciando o alto volume de investimentos em eventos artísticos.

No cenário brasileiro, o relatório aponta que apenas 40 artistas concentraram mais de R$ 3 bilhões no período analisado, demonstrando uma forte concentração de recursos em poucos nomes. Ainda segundo o estudo, o volume total de contratos com shows públicos atinge cifras bilionárias, com destaque para a região Nordeste.

O relatório também levanta questionamentos sobre a forma como esses contratos são realizados. Um dos principais pontos é o uso recorrente da inexigibilidade de licitação, modalidade que permite a contratação sem concorrência pública. Entre as críticas apontadas estão os valores elevados de cachês, a falta de transparência e a definição de prioridades na aplicação dos recursos públicos.

Na Bahia, investigações já identificaram indícios de possíveis irregularidades, incluindo suspeitas de superfaturamento em alguns contratos. Outro dado que chama atenção é o volume de gastos com festas juninas. Somente em 2026, as despesas chegaram a cerca de R$ 659 milhões, segundo dados oficiais de transparência.

Os números reforçam o debate sobre o uso de recursos públicos em eventos festivos, especialmente em um contexto em que diversos municípios enfrentam dificuldades em áreas essenciais, como saúde, infraestrutura e equilíbrio financeiro.

O valor de R$ 578 milhões coloca a Bahia no topo do ranking nacional de gastos com shows no período analisado, à frente de Pernambuco, que registrou R$ 573 milhões. Na sequência aparecem Ceará (R$ 316 milhões), Minas Gerais (R$ 192 milhões) e Sergipe (R$ 161 milhões).

Segundo o levantamento, a maior parte dos contratos é de responsabilidade das prefeituras. Apenas 113 registros estão vinculados ao âmbito estadual e somente um ao governo federal, reforçando o protagonismo dos municípios na realização de eventos e contratação de artistas.

Entre as cidades, Salvador aparece como a segunda que mais gastou com shows, somando R$ 34,16 milhões, ficando atrás apenas de Aracaju (SE), que lidera com R$ 39,27 milhões. Municípios como Maceió, Goiana, Petrolina e São Luís também figuram entre os maiores investimentos.

Na Bahia, os gêneros musicais mais contratados foram brega, arrocha e piseiro, enquanto estilos tradicionais como axé e pagodão registraram menor volume de contratações no período analisado.

O relatório também destaca os altos cachês pagos a artistas. Entre os maiores valores identificados no estado estão contratos com Léo Santana, que chegou a receber R$ 1,6 milhão por apresentação, Wesley Safadão, com até R$ 1,5 milhão, e Bell Marques, com cerca de R$ 1,2 milhão.

Em nível nacional, o estudo aponta que os 100 artistas mais contratados receberam, juntos, mais de R$ 5 bilhões em recursos públicos. Desse total, um grupo de 40 artistas concentrou R$ 3,08 bilhões, evidenciando novamente a concentração de recursos.

Outro destaque do levantamento são as vaquejadas, que aparecem entre os eventos com maiores gastos. Na Bahia, uma das maiores contratações foi registrada na vaquejada de Formosa do Rio Preto, que se tornou alvo de questionamentos por órgãos de controle. Eventos semelhantes, como o de Morro do Chapéu, também figuram entre os maiores cachês do país.

A pesquisa ainda chama atenção para problemas de transparência. Cerca de 40% dos contratos analisados não estavam disponíveis no Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP), obrigando os pesquisadores a buscar dados manualmente em portais municipais, diários oficiais e órgãos de fiscalização.

O estudo, que levou seis meses para ser concluído, analisou mais de 20 mil contratos de 250 artistas em todo o Brasil. Segundo os autores, o Nordeste concentra a maior parte dos recursos, com forte atuação de produtoras da região, que juntas movimentaram R$ 2,42 bilhões no período.

O cantor mais contratado do país foi Natanzinho Lima, que acumulou R$ 158 milhões em 336 apresentações financiadas com recursos públicos, o equivalente a uma média de um show pago pelo poder público a cada dois dias e meio.

A divulgação do relatório abre um novo eixo de monitoramento de gastos públicos pelo observatório, voltado a acompanhar a aplicação de recursos e as conexões entre eventos, artistas e financiamento público no Brasil.

Um levantamento da TV Bahia já havia revelado um suposto esquema de superfaturamento em cachês de shows pagos com dinheiro público. O esquema operou entre 2015 e 2024 na Sufotur e na Bahiatursa, movimentando milhões de reais através de produtoras intermediárias e uso de "laranjas".

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