A crise no setor calçadista afeta empresas e Vulcabrás/Azaléia podem deixar a Bahia

Vitor Longo - Redação Correio - 02/07/2011 - 09:16


Itapetinga - A indústria de calçados na Bahia está prestes a perder boa parte do que conseguiu nos últimos dez anos. O símbolo da crise do setor é a fábrica da Vulcabras/Azaléia, localizada em Itapetinga, a 580 quilômetros de Salvador. Só nos últimos sete meses, a unidade demitiu 3 mil funcionários da região Centro-Sul do estado, segundo cálculos da prefeitura de Itapetinga.

 Agora, a empresa ameaça deixar a Bahia e migrar para Nova Délhi, capital da Índia, deixando quase 18 mil pessoas sem emprego. Além da matriz, em Itapetinga, a fábrica tem filiais em outros 13 municípios baianos.

 “Se as autoridades brasileiras não mudarem a política econômica, toda a indústria de calçados vai acabar migrando para outros países e não seremos exceção”, admitiu ao CORREIO o presidente da Vulcabras/Azaléia, Milton Cardoso, lembrando que várias empresas brasileiras já atuam em países da Ásia e da América Central.

 A fábrica na Bahia trilha o mesmo caminho da de Parobé, no Rio Grande do Sul, onde a Vulcabras fechou uma unidade, em maio passado, anunciando que a produção passaria para a Índia. A mão de obra bem mais barata do país é o principal atrativo: o salário de um operário é cerca de US$ 85, dez vezes menos que aqui.

 Em novembro de 2010, o então gerente-geral da fábrica de Itapetinga, Lauro Saldanha, deixou o posto e mudou-se para a Índia, onde trabalha na implantação da nova planta da Vulcabras. Em seu lugar, assumiu Adair Francisco Souza, que se recusou a falar com a reportagem. O prefeito da cidade, José Carlos Moura (PT), porém, afirmou que o primeiro semestre de 2011 tem sido ruim para a empresa. “Um técnico me disse que este estava sendo o pior ano da fábrica”, relatou Moura.

 Enquanto fontes de Itapetinga indicam que equipamentos da fábrica serão levados para a Índia em pouco tempo, Cardoso ressalta os problemas na unidade. “Já ultrapassamos o nosso limite de estoque e temos concedido férias coletivas freqüentemente”, lamentou. Segundo ele, a unidade de Nova Délhi deve começar a funcionar nos próximos meses.

A competição dos produtos locais com os importados de países asiáticos, especialmente da China, é apontada como o principal motivo para a crise que afeta o setor calçadista. “As medidas antidumping contra produtos chineses têm perdido efeito por conta da enorme valorização do real, e também porque há suspeita de que os produtos chineses driblem as medidas antidumping fazendo triangulação em outros países”, explicou o consultor Erno Froeder, do Plano Planejamento e Assessoria.

 Froeder falou com a reportagem depois de participar da Feira Internacional da Moda em Calçados e Acessórios (Francal 2011), realizada em São Paulo até ontem. Na ocasião, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, prometeu mais rigor na fiscalização da entrada de produtos chineses no país.

 O presidente executivo do Sindicato da Indústria de Calçados e Componentes do Estado da Bahia (SINDICALÇADOS-BA), Haroldo Ferreira, não quis falar sobre as demissões na Vulcabras, mas reconheceu que a Bahia e o Brasil têm deixado de ser atraentes para o setor.

Na Bahia, a indústria calçadista teve seu boom nos anos 90. Várias fábricas vieram para cá atraídas por incentivos fiscais e pelos salários mais baixos que os do Sul do país, mas hoje se encontram ameaçadas pela possível perda desses incentivos, com o recente entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) de considerá-los inconstitucionais.

 

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