O diretor da JBS Ricardo Saud disse em conversa telefônica com um dos donos da companhia, o empresário Joesley Batista, que o procurador Marcelo Miller, que atuou por três anos no gabinete do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, estava “afinado” com eles e que estaria encaminhando o acordo de colaboração premiada que viria a ser fechado.
O diálogo ocorreu, provavelmente, no dia 17 de março, dez dias depois da conversa gravada por Joesley com o presidente da República, Michel Temer (PMDB), no Palácio do Jaburu, e dez dias antes de o acordo com o Ministério Público Federal ser efetivamente fechado. Miller pediu demissão em janeiro de 2017 e, três meses depois, se apresentou à PGR como sócio do escritório Trench, Rossi e Watanabe, contratado do grupo J&F, que controla a JBS, para negociação de acordo de leniência no âmbito cível.
Para Janot, essa sucessão de datas “é importante porque sugere a participação de então membro do Ministério Público Federal em atividade supostamente criminosa e/ou de improbidade administrativa”, disse o procurador-geral da República. “Em alguns trechos, Ricardo Saud afirma que já estaria ‘ajeitando’ a situação do grupo empresarial J&F com então procurador da República Marcelo Miller, bem como que Marcelo Miller estaria ‘afinado’ com eles”, diz trecho do despacho assinado por Janot no qual ele determina a abertura de investigação para apurar o conteúdo do áudio.
Serão investigados, além de Saud e Joesley, o advogado do grupo J&F Francisco de Assis e Silva, que também firmou acordo de colaboração premiada com o MPF. “Em determinada passagem, os interlocutores afirmam que, quando da deflagração da Operação Carne Fraca – que investigou vários frigoríficos do país, alguns deles ligados à JBS – , Marcelo Miller teria enviado extensa mensagem para Francisco de Assis e Silva tentando justificar a situação”, diz outro trecho do despacho de Janot.
A gravação de quatro horas que poderá levar à anulação da delação premiada dos executivos da JBS traz menções comprometedoras a quatro ministros do Supremo Tribunal Federal. Uma dessas menções é considerada “gravíssima” pelos procuradores – embora as demais, nas palavras de quem as ouviu, também causem embaraços aos envolvidos.
Fontes com acesso ao áudio revelaram a VEJA que os ministros são citados pelos delatores Joesley Batista e Ricardo Saud em situações que denotam “diferentes níveis de gravidade”.
Algumas são consideradas até banais, mas “ruins” para a imagem dos ministros. Mas uma delas, em especial, se destaca por enredar um dos onze ministros da corte em um episódio que parece “mais comprometedor”.
Joesley e Saud se gravaram durante o processo de negociação da delação premiada com a Procuradoria. Aparentemente, estavam aprendendo a operar um dos gravadores que usariam para registrar conversas com autoridades.
O áudio, diz uma fonte, indica que ambos estavam sob efeito de álcool durante a conversa – o que, de acordo com autoridades que trabalham no caso, não elimina a necessidade de investigação sobre o teor do diálogo.