
Um convite divulgado nas redes sociais da Catedral Diocesana de Eunápolis e no perfil pessoal do padre Diego Reis para uma manifestação religiosa durante o período eleitoral vem gerando repercussão positiva na cidade e levantando discussões sobre a importância entre a atuação religiosa e o debate político.
O evento, denominado “Jesus na Praça das Eleições”, está marcado para o dia 22 de outubro, às 19h, na Praça Frei Calixto, em Eunápolis. A programação prevê um momento de oração e adoração pública pelo Brasil, além de uma mobilização pelas ruas da cidade.
Apesar dos questionamentos por alguns que descordam, a iniciativa também foi bem recebida por famílias tradicionais e grupos ligados à defesa da fé cristã e dos valores familiares, que consideram importantes manifestações públicas de oração pelo país em um momento de forte polarização política.
Para esse grupo, o evento representa uma oportunidade de reunir cristãos para orar pelo Brasil, defender a família e manifestar valores considerados importantes pela comunidade religiosa.
Embora o padre não tenha citado nominalmente nenhum candidato no convite, a escolha da data e o contexto eleitoral provocaram interpretações diferentes entre moradores e seguidores.
“Um presidente segundo o coração de Deus”
Na publicação, o sacerdote aparece ao lado de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida e convoca os fiéis para participar da mobilização.
Em outro trecho do conteúdo divulgado, Diego Reis pede orações para que o país tenha “um presidente segundo o seu coração” e afirma que a mobilização tem como objetivo clamar pelo Brasil durante o segundo turno das eleições.
A combinação entre a data do evento, a proximidade do segundo turno e a convocação para uma mobilização pelas ruas colocou a iniciativa no centro do debate.
Apoio e críticas nas redes sociais
A publicação recebeu manifestações de apoio, mas também críticas de internautas e paroquianos que questionaram a utilização de canais ligados à Igreja para divulgar uma mobilização realizada durante o período eleitoral.
Padre nega apoio a candidato
Procurado, Diego Reis afirmou que o ato possui caráter político-religioso, mas negou que a mobilização tenha sido organizada para promover uma candidatura específica.
Segundo o sacerdote, a proposta é realizar uma manifestação pública de fé e oração pelo Brasil, sem transformar a Igreja ou a paróquia em comitê eleitoral.
O padre defende que o fato de a Igreja não ser partidária não significa que deva permanecer distante das discussões relacionadas à vida pública.
Na avaliação dele, os cristãos podem considerar princípios e valores da fé no momento de exercer sua cidadania e escolher seus representantes.
Padre fala sobre esquerda, socialismo e comunismo
Em seu posicionamento, Diego Reis também afirmou considerar a esquerda incompatível com o cristianismo, citando o comunismo e o socialismo.
O sacerdote sustentou que determinadas propostas e posicionamentos políticos podem estar mais próximos ou mais distantes dos princípios que considera compatíveis com a doutrina católica.
Ao mesmo tempo, afirmou que isso não significa “canonizar candidatos” e defendeu que cada fiel permaneça livre para tomar sua própria decisão.
“Não pretendo transformar a paróquia em comitê eleitoral”, afirmou o padre.
Evento em defesa da fé e da família
Para os apoiadores da iniciativa, o encontro não deve ser interpretado apenas sob a ótica eleitoral.
A proposta, segundo essa visão, está relacionada à necessidade de fortalecer a fé, reunir famílias e defender valores cristãos, especialmente em um momento de intensa disputa política no país.
Famílias tradicionais que apoiam o evento afirmam que manifestações públicas de oração pelo Brasil fazem parte da liberdade religiosa e que os cristãos também têm o direito de se posicionar sobre os valores que consideram importantes para a sociedade.
O que diz a Igreja sobre política
A atuação de membros do clero durante períodos eleitorais possui limites estabelecidos pelas normas da Igreja Católica e pelas orientações da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
O Código de Direito Canônico estabelece restrições à participação de clérigos em partidos políticos. A Igreja também orienta que sacerdotes e bispos contribuam para a formação da consciência dos fiéis, sem transformar a atuação pastoral em campanha eleitoral.
A diferença entre formação política, manifestação religiosa e apoio eleitoral a uma candidatura é justamente um dos pontos que podem ser avaliados pelas autoridades eclesiásticas.
Data do evento chama atenção
Um dos principais pontos de discussão é a escolha do dia 22 de outubro.
O evento está marcado para apenas três dias antes do segundo turno da eleição presidencial, previsto para 25 de outubro.
Além disso, o número 22 corresponde ao número de urna de Flávio Bolsonaro (PL), que disputa o segundo turno contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O padre, entretanto, não citou nominalmente Flávio Bolsonaro nem qualquer outro candidato na convocação e afirma que o objetivo da mobilização é religioso.
Debate continua
Apesar das explicações apresentadas pelo sacerdote, permanecem em discussão a escolha da data, a utilização das páginas institucionais da Catedral para divulgação, a convocação para uma mobilização pelas ruas e os relatos relacionados aos comentários críticos.
A eventual existência de alguma irregularidade dependerá da análise das autoridades competentes, tanto no âmbito eclesiástico quanto, se houver elementos, no âmbito eleitoral.
Até o momento, o episódio permanece como objeto de debate religioso, político e social em Eunápolis.
Em uma eleição marcada pela polarização, o “Jesus na Praça das Eleições” já conseguiu provocar exatamente o que costuma acontecer em momentos de grande disputa política: debate. Para os críticos, a iniciativa levanta questionamentos sobre os limites entre religião e política. Para os apoiadores, trata-se de um ato legítimo de fé, oração e defesa da família e dos valores cristãos.